O dia de Gustavo Pereira, de 24 anos, começa às 4h da manhã. É nesse horário que ele levanta para preparar o café e o chocolate quente que vende em um semáforo de Lages, na Serra de Santa Catarina.
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Além da venda das bebidas, Gustavo mantém outros dois empregos. A atividade matinal, porém, tem um significado que vai além da renda: ajudar a ocupar a mente depois de enfrentar um vício em apostas online.
Entre 2020 e 2026, ele afirma ter perdido mais de R$ 500 mil em jogos, dinheiro que vinha do salário, de empréstimos bancários e de dívidas relacionadas aos negócios da família.
“Vivia para o jogo. Ganhava R$ 10 mil por mês e ia tudo pro jogo. Às vezes ganhava um pouquinho mais e cheguei a vender coisa, vendi, vendi tudo. Vendi notebook, TV, roupa, tênis, vendi tudo que eu podia, foi loucura, loucura, loucura”, conta.
Vício começou com apostas esportivas
Gustavo conta que começou a apostar em 2020, inicialmente com valores baixos. Segundo ele, as apostas começaram com quantias entre R$ 5 e R$ 100, mas a situação mudou a partir de 2024.
Com o avanço do vício, ele passou a utilizar empréstimos bancários e afirma que ainda possui cerca de R$ 150 mil em dívidas.
“Parei de lidar só com apostas esportivas e me envolvi com cassinos. Perdi noção de valores, comecei a dever para banco. Mesmo por dentro, sabendo que eu tinha um problema com jogo, eu não aceitava o vício.”
Um dos passos que considera decisivos para interromper as apostas foi utilizar a ferramenta de autoexclusão de sites de apostas, disponibilizada pelo Ministério da Fazenda. Gustavo afirma que está há três meses sem apostar e considera a medida fundamental para o processo.
“Não tinha mais para quem pedir dinheiro, não tinha mais dignidade. Sentia vergonha de sair na rua, de olhar para as pessoas, porque muitos sabiam minha situação.”
Rotina ajuda no recomeço
A venda de café e chocolate quente começou há cerca de 20 dias. Gustavo trabalha com as bebidas durante as manhãs e parte das tardes, de segunda a sexta-feira.
À tarde, ele trabalha com vendas e, à noite, atua como garçom. A rotina faz com que seu dia comece às 4h e termine perto da meia-noite.
“A partir do momento que eu comecei a ocupar minha mente, eu não penso mais em jogo, eu não tenho mais vontade.”
Além da renda, o contato com os clientes passou a fazer parte do processo de reconstrução da própria confiança.
Quem compra recebe o copo com a bebida e a chave Pix de Gustavo, podendo fazer o pagamento depois.
“Antigamente as pessoas confiaram em mim e eu as decepcionei. Eu perdi o dinheiro delas, eu as enganei. Hoje, eu confio nelas, eu me obrigo a confiar nelas no meu negócio.”
Café também virou forma de recuperar a autoestima
Segundo Gustavo, o trabalho no semáforo também trouxe mudanças na forma como ele se relaciona com as pessoas.
No início, conta que tinha dificuldade até de olhar nos olhos dos clientes. Hoje, conversa, brinca e tenta tornar o dia de quem passa pelo local um pouco mais leve.
“O café está me salvando de uma maneira surreal. Eu não tinha mais coragem, não tinha credibilidade com as pessoas. Eu parei de acreditar em mim. Tudo que eu falava era mentira, o vício desencadeia mentira, desencadeia omissão. No semáforo, no início, eu não conseguia nem olhar nos olhos das pessoas. Hoje já é diferente. Não me sentia vivo assim há muito tempo.”
A história de Gustavo ganhou repercussão nas redes sociais. O vídeo em que ele mostra parte da rotina vendendo café no semáforo ultrapassou 36 mil visualizações em uma rede social até a noite de terça-feira (25).
Hoje, ele usa a própria experiência como forma de incentivar outras pessoas que enfrentam problemas com apostas a buscar alternativas para interromper o ciclo e reconstruir a rotina.
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