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VÍDEO: Marceneiro se emociona ao contar como criou empresa sem madeira e recebeu cliente sem uma perna em Xanxerê

Alcides construiu uma trajetória de 46 anos na marcenaria

Por: Daiane da Silva
12/09/2026 08h30 - Atualizado há 5 horas
(Foto: Divulgação)
(Foto: Divulgação)

Há 46 anos, quando ainda não tinha máquinas, madeira suficiente ou sequer uma furadeira para trabalhar, Alcides Aparicio Tomazi recebeu um pedido que jamais esqueceu: fazer uma muleta para um homem que havia perdido uma perna

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O desafio marcou o início da trajetória do marceneiro em Xanxerê, no Oeste de Santa Catarina, e se transformou em uma das histórias que ele carrega com mais emoção ao lembrar da construção da empresa.

Hoje, Alcides olha para trás e vê uma jornada construída com dificuldades, aprendizado e dedicação à profissão.

Começo foi na roça

Alcides chegou a Xanxerê ainda criança. Em 1963, vindo do Rio Grande do Sul, tinha cerca de 7 anos quando passou a trabalhar com os pais na agricultura.

Depois de alguns anos na roça, também trabalhou por quase um ano na Hidroelétrica Xanxerê, onde atuava na abertura de buracos para a colocação de concreto.

Foi depois dessa experiência que começou a se aproximar da área que mudaria sua vida.

Alcides trabalhou na Indústria de Madeiras Líderes, pertencente à família Bortolão. Foi ali que aprendeu a profissão de marceneiro e ganhou experiência para, anos mais tarde, pensar em abrir o próprio negócio.

A fábrica começou no fundo de um terreno

A ideia de abrir uma fábrica surgiu ao lado do colega de trabalho Claudio Trombetta. Os dois chegaram a considerar a possibilidade de montar o negócio em Abelardo Luz ou São Domingos, mas encontraram dificuldades para encontrar um barracão e também esbarraram na falta de recursos.

“Voltamos desanimados”, relembrou Alcides.

Foi então que surgiu outra possibilidade. O irmão de Alcides era dono do terreno onde hoje funciona a empresa. O marceneiro pediu autorização para construir um pequeno barracão nos fundos da propriedade.

O local, segundo ele, era um terreno alagadiço. Para conseguir começar a construção, os dois precisaram fazer o aterramento de forma artesanal.

O barracão foi construído, mas ainda havia outro problema: faltavam máquinas para trabalhar.

As próprias máquinas foram feitas por eles

Sem dinheiro para comprar os equipamentos necessários, Alcides e Claudio precisaram improvisar.

Os primeiros equipamentos utilizados na produção foram construídos pelos próprios sócios, inclusive utilizando madeira, mas ainda faltavam ferramentas básicas.

Uma das primeiras furadeiras utilizadas na marcenaria foi um arco de pua, ferramenta manual que Alcides conseguiu emprestada do pai.

Até mesmo a lâmina de serra precisou ser buscada fora. O marceneiro pediu o equipamento emprestado ao antigo chefe, Adi Bortolão, com quem havia trabalhado na Indústria de Madeiras Líderes.

Era o que eles tinham para começar.

A primeira encomenda era uma muleta

Foi nesse cenário que apareceu o primeiro cliente.

Um homem com uma deficiência e uma perna queimada procurou a recém-criada marcenaria. Ele precisava de uma muleta.

O problema era que Alcides e Claudio não tinham nem mesmo madeira disponível para produzir a peça.

Alcides então comprou uma tábua, tirou as medidas e começou a fabricar a muleta. Depois de pronta, o cliente perguntou quanto deveria pagar pelo trabalho.

A resposta ficou marcada na memória do marceneiro.

“Você não paga nada. Vai com Deus. Reze uma Ave-Maria para nós”, contou Alcides durante a entrevista.

Ao relembrar o episódio, o marceneiro se emocionou.

A história representa, para ele, o tamanho das dificuldades enfrentadas no início da empresa e também uma escolha que se tornou parte de sua trajetória: mesmo diante da falta de recursos, priorizar a qualidade do trabalho e ajudar quando fosse possível.

Da madeira ao legado

A pequena fábrica cresceu aos poucos e a parceria entre Alcides e Claudio permaneceu por cerca de 20 anos.

A marcenaria também passou a formar profissionais. Segundo Alcides, muitos dos trabalhadores que hoje atuam em empresas do setor em Xanxerê tiveram algum tipo de aprendizado ou passagem pela Tomazi Móveis.

Para Alcides, o móvel deixou de ser apenas um produto e passou a representar uma forma de arte.

A trajetória de 46 anos também trouxe uma mudança recente. Em 2025, Alcides decidiu deixar a condução diária das atividades da empresa e passar o comando para Sandro, profissional que trabalhou durante 15 anos ao lado dele.

A decisão não significa, porém, um afastamento completo.

Hoje, Sandro é quem conduz as atividades da empresa, enquanto Alcides continua frequentando o local praticamente todos os dias.

Ele já não precisa chegar às 7h para cumprir a rotina que manteve durante décadas, mas continua acompanhando o trabalho, trocando ideias e ajudando quando pode.

Uma história que começou com pouco

Ao olhar para o caminho percorrido, Alcides vê muito mais do que uma empresa que sobreviveu por décadas.

A história começou em um terreno que era um banhado, com um pequeno barracão, máquinas improvisadas, uma ferramenta emprestada e uma lâmina de serra cedida por um antigo chefe.

E o primeiro trabalho não foi um grande móvel ou uma encomenda de alto valor. Foi uma muleta.

Uma peça simples, feita com uma tábua comprada especialmente para aquele cliente, que ajudou a marcar o começo de uma trajetória que já dura 46 anos.

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